O Novo Grande Debate

Em 2002, o Dream Theater lançou o álbum duplo “Six Degrees of Inner Turbulence”, que ainda estou absorvendo aos poucos. Comecei por “The Great Debate”, uma pérola de 14 minutos que fala sobre a discussão na sociedade em torno das células tronco.

Na introdução da música, podemos perceber entrevistas rolando em estéreo. De acordo com os comentários no SongMeanings, os pontos de vista da esquerda e da direita são representados nos respectivos canais. Eu consigo entender a maioria dos comentários, e acho essa música simplesmente genial.

Num dos comentários, uma âncora de jornal diz: “Uma enquete feita pela Gallup* imediatamente após o discurso do presidente George Bush sobre células-tronco na noite passada**  mostra que 50% dos americanos aprovam sua decisão, 25% desaprovam, enquanto outros 25% não estão certos do que pensar”.

*: Gallup é uma empresa americana especializada em opinião pública, algo como o nosso IBOPE.
**: O discurso de Bush criava diversas barreiras para as pesquisas em células-tronco, de maneira a quase impossibilitar sua realização. Foi dito, na época, que Bush queria agradar a extrema-direita conservadora do Partido Republicano.

Temos um novo Grande Debate agora. O assunto é Copenhague, e as pessoas não sabem o que está acontecendo. Só sabem que nossos líderes estão discutindo a possibilidade de refrear as emissões de carbono. O que ninguém sabe é como isso será feito.

“Humankind has reached a turning point”

O aquecimento global, contudo, é real. As pesquisas em células-tronco foram largamente criticadas por não oferecerem provas que funcionariam. Na própria música do Dream Theater temos um argumento direitista que diz “Onde está a prova?” Até hoje são discutíveis os reais benefícios dessa pesquisa, mas temos que dar o braço a torcer num aspecto: SEM PESQUISA, NÃO HÁ PROVA. Como podemos chegar a um resultado sem testar hipóteses, desenvolver técnicas, sem efetivamente pesquisar?

O aquecimento global não envolve fetos nem religião, felizmente. E temos medições térmicas confiáveis desde o século 19. Não há como isolar os cientistas aqui; nós temos os dados, temos maneiras de diminuir a temperatura, e não existe Deus algum que nos diga que o aquecimento global é vontade Dele. Temos a faca e o queijo na mão. Nossos líderes podem cortar esse queijo agora. Mas o que eles vão fazer?

Primeiro: Aparecer. Ontem vi no Jornal Nacional que José Serra e Dilma Roussef ESTÃO em Copenhague. Ambos pré-candidatos, tiveram tempo para falar suas posições. Temos eleições em 2010. Façam as contas.

Segundo: Codificar. Eles vão sair de lá com um acordo tão amarrado que ninguém conseguirá entender pra que serve. Nem nós. Nem eles.

Terceiro: Tirar da reta. Já li relatos de que nossos líderes estão planejando uma farsa em Copenhague. De acordo com Johann Hari, repórter do Independent inglês, o plano do momento é comprar emissões de carbono. Isso já acontecia com o petróleo. Com os petrodólares, nações como o Iraque cortavam “emissões de democracia” com o aval dos próprios países democráticos. Agora teremos os “carbodólares”.

Pelo que está sendo “definido” em Copenhague, as nações ricas poderão continuar poluindo, desde que comprem suas cotas de emissão dos países em desenvolvimento. Agora todas as nações podem ter seus próprios petrodólares. O Sudão, por exemplo, pode vender sua inexistente emissão de carbono para os EUA. Dessa maneira, ganha carbodólares que teoricamente serão investidos em plantio de florestas ou construção de parques eólicos, que geram energia limpa. Terão uns 20 anos pra fazer isso, e ganhando uma mesada anual de carbodólares, que serão gastos em quê? Quem chutou armas, parabéns.

A burocracia se expande…

Teremos então um novo acordo global, feito para diminuir as emissões de CO2 na atmosfera. Todos os países serão signatários, ao contrário do Protocolo de Kyoto, que tinha tudo para funcionar mas não foi ratificado pelos EUA. Ao invés disso, temos essa política de troca, em que os países não diminuem suas emissões, e sim trocam com países que teoricamente precisam dessas emissões para crescer.

Haverá um novo jogo diplomático, em que as nações poluentes terão um habeas corpus preventivo, em que não poderão mais ser acusadas de causar o aquecimento global, pois estão pagando para que outras nações não emitam. Quem fiscalizará isso? Quem vai conseguir vigiar todos os acordos a todo tempo?

… para atender aos interesses da burocracia.

Johann Hari citou um exemplo de como as grandes economias poluidoras já estão amarrando seus cadarços:

“Se a Inglaterra paga à China para abandonar uma usina termoelétrica que usa carvão e construir uma hidroelétrica em seu lugar, a Inglaterra embolsa uma redução nas emissões de carbono como parte de nossos cortes nacionais. Em retribuição, podemos deixar uma termoelétrica aberta aqui. Mas ao mesmo tempo, a China também vai contar essa mudança como parte de seus cortes. Então uma tonelada de cortes de carbono é contada duas vezes. Isso quer dizer que o sistema inteiro está cheio de exageros – e a concepção de cortes globais não passa de um golpe.” (Link)

Na prática, teremos dois créditos de carbono que são usados para fechar apenas uma fonte de poluição. Isso não pode acontecer. Mas já está acontecendo, e nossos jornais já estão avisando do passeio que é “Hopenhagen”. É lobby das indústrias poluentes pra cá, é interesse nacional pra lá, e no fim das contas, cada país quer manter seu PIB crescendo e evitar uma recessão.

Só que quando acordarmos, pode ser tarde demais.

P.S.: O Dream Theater poderia fazer uma atualização do “The Great Debate” para os novos tempos. Tipo um “part II”. Se alguém conhece os caras (haha), mande a sugestão.

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