Dinheiro de plástico?

5 julho 2010

Imagine a seguinte situação.

Você está dirigindo seu carro por um bairro em que você não conhece ninguém. A bateria do seu celular acabou. De repente, o carro engasga, e como se já não estivesse com azar o suficiente, ele não quer mais pegar. São 23:01 de domingo, e tudo que você queria nessa noite fria de julho era estar em casa, embaixo de um cobertor e dormindo pra encarar a segunda-feira. Você pensa em chamar o guincho, mas o número estava no seu celular. O bairro não é barra-pesada, de forma que alguns carros ficam estacionados na rua.

Seu bairro ainda fica a 15 km de distância, uma boa caminhada entre subidas e descidas. Você está sozinho. Ao buscar um número de guincho na carteira, você descobre que ainda por cima esqueceu de sacar dinheiro – está liso, com apenas um cartão de crédito. E pior: não tem dinheiro em casa. Já passa das 22, e os caixas rápidos estão desligados.

Essa é a hora que você senta e chora. O guincho não aceita cartão de crédito. Moto-taxi também não. Nem táxi. Você tem um pedaço de plástico em que confiava, mas num momento de fraqueza ou estresse esqueceu de sacar dinheiro. E agora?

Danou-se.

Dinheiro de plástico

Tudo bem. Claro que estou exagerando. É só uma situação em que tudo dá errado e você fica em maus lençóis por confiar demais no dinheiro de plástico, ou cartão de crédito/débito. Não se iluda; as coisas podem dar errado, e hoje eu mesmo descobri que a) nem todo mundo aceita cartão; b) quando aceita, pode ficar fora do ar; e c) a máquina pode dar erro de leitura.

E se você não tiver o dinheiro? É hora de passar vergonha, de pendurar a conta do restaurante – o dono pode até te conhecer bem, mas quando se trata de dinheiro são elas por elas – ou deixar a identidade (celular, às vezes) no posto de gasolina, por ter esquecido de perguntar se aceitavam cartão. Você vai se sentir um bandido.

Mas que coisa, você pensa, estamos em pleno ano 2010, por que diabos as pessoas não aceitariam cartão?

Claro que o motivo é dinheiro. As operadoras de cartões cobram mensalidade por seus serviços, e uma módica taxa que varia de 3 a 5 por cento de toda a movimentação financeira que passa por suas maquininhas. Nem todo mundo está disposto a pagar mais um imposto só pra que seus clientes tenham a conveniência de não andar com a carteira cheia de dinheiro.

Me chamem de utópico, mas eu acredito que uma conveniência dessa poderia ser regida pelo Estado. Pensemos. Já pagamos impostos absurdos sobre quase tudo. No entanto, nos dispomos a pagar uma anuidade (em geral, alta) para usar cartões de crédito e débito, e nosso produto é taxado novamente para não precisarmos do dinheiro. Poderia funcionar como no Japão, em que as pessoas já pagam os impostos no momento que fazem a compra. Imagina como isso facilitaria a declaração do imposto de renda?

Eu sei dos perigos de se guardar dinheiro em casa. Mas olhando por um outro ângulo, se eu não tivesse deixado meu dinheiro todo no banco, eu poderia pegar um táxi, pagando ao chegar em casa. Por razões de segurança, de 22:00 às 06:00 não importa quanto dinheiro você tenha no banco, seja 300 reais ou 300 mil: você só tem o que está no seu bolso, e só pode gastar em locais que aceitam o seu dinheiro de plástico.

O resto não existe.


Nova Era: Manifestação de Atraso

16 dezembro 2009

Escrevo neste momento em repúdio atrasado à manifestação “pacífica” executada por moradores da cidade de Nova Era – MG, que fechou nesta segunda-feira 17 a rodovia BR-381 durante cerca de oito horas.

De acordo com o Jornal O Tempo, “moradores da cidade estão contrariados com a administração municipal. Eles atearam fogo em pneus, espalhados por toda a rodovia, no sentido da cidade de São Domingos do Prado. Até às 20h20, a manifestação seguia pacífica e sem registro de feridos.”

Mas hein?

Manifestação pacífica? Poderia ser trocado para “não-violenta”, mas de modo algum uma BR bloqueada pode ser considerada parte de ação pacífica.

E o que é que uma rodovia federal, que por acaso corta a cidade, tem a ver com a administração municipal? Por que é que um morador de Ipatinga ou qualquer outra cidade tem que ficar 8 horas dentro de um ônibus, esperando os manifestantes de-sequestrarem a rodovia? É um ato de terrorismo em estrada federal, vai dizer que ninguém foi preso?

Você quer manifestar contra o prefeito da sua cidade? Vai na porta da casa dele, oras! Tenho certeza que alguém sabe onde fica. Mas você não precisa indispor milhares de pessoas que estão apenas por acaso passando na frente da sua cidade, que por sinal se desenvolveu devido à rodovia. Isso só aumenta nosso repúdio por tal manifestação de atraso por parte de alguns radicais que atrapalham a vida de gente do Brasil inteiro pra ter suas demandas atendidas.

Eu não posso ajudar vocês, novaerenses, novaeranos ou o que seja. Eu não moro aí. Fechar a estrada para a capital é um crime, sim, e nenhuma boa intenção diminui as consequências que podem ter existido pra milhares de pessoas e centenas de cargas que chegaram oito horas atrasadas ao seu destino.


O Novo Grande Debate

15 dezembro 2009

Em 2002, o Dream Theater lançou o álbum duplo “Six Degrees of Inner Turbulence”, que ainda estou absorvendo aos poucos. Comecei por “The Great Debate”, uma pérola de 14 minutos que fala sobre a discussão na sociedade em torno das células tronco.

Na introdução da música, podemos perceber entrevistas rolando em estéreo. De acordo com os comentários no SongMeanings, os pontos de vista da esquerda e da direita são representados nos respectivos canais. Eu consigo entender a maioria dos comentários, e acho essa música simplesmente genial.

Num dos comentários, uma âncora de jornal diz: “Uma enquete feita pela Gallup* imediatamente após o discurso do presidente George Bush sobre células-tronco na noite passada**  mostra que 50% dos americanos aprovam sua decisão, 25% desaprovam, enquanto outros 25% não estão certos do que pensar”.

*: Gallup é uma empresa americana especializada em opinião pública, algo como o nosso IBOPE.
**: O discurso de Bush criava diversas barreiras para as pesquisas em células-tronco, de maneira a quase impossibilitar sua realização. Foi dito, na época, que Bush queria agradar a extrema-direita conservadora do Partido Republicano.

Temos um novo Grande Debate agora. O assunto é Copenhague, e as pessoas não sabem o que está acontecendo. Só sabem que nossos líderes estão discutindo a possibilidade de refrear as emissões de carbono. O que ninguém sabe é como isso será feito.

“Humankind has reached a turning point”

O aquecimento global, contudo, é real. As pesquisas em células-tronco foram largamente criticadas por não oferecerem provas que funcionariam. Na própria música do Dream Theater temos um argumento direitista que diz “Onde está a prova?” Até hoje são discutíveis os reais benefícios dessa pesquisa, mas temos que dar o braço a torcer num aspecto: SEM PESQUISA, NÃO HÁ PROVA. Como podemos chegar a um resultado sem testar hipóteses, desenvolver técnicas, sem efetivamente pesquisar?

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O Direito de Vestir

14 novembro 2009

Pessoal,

Sinto que voltei no tempo e estou falando sobre o Caso Isabela Nardoni de novo. É culpa do jornal, ficam dando tanta atenção à Geisy que me pego pensando na repercussão, e acabo pensando algo diferente que preciso falar. Não estou justificando, pensem pelo lado bom. Pelo menos estou escrevendo de novo.

É que eu li uma carta no “Painel do Leitor” da Folha de São Paulo de ontem (13/11), de uma médica ginecologista e obstetra chamada Socorro Magalhães, de Fortaleza/CE. Reproduzo aqui:

“Não entendo mais o que são valores morais.

É claro que vivemos numa democracia, mas o direito de um termina quando o do outro começa.

A conduta descabida, o erotismo e o modo de vestir-se e de se portar dessa garota desviava a atenção dos alunos das aulas, prejudicando o bom desempenho daqueles que ali se encontravam na luta por um espaço no mercado de trabalho nesse mundo altamente competitivo.

Ela queria chamar a atenção para si e conseguiu o seu intento com êxito, pois essa nossa sociedade nos surpreende com tamanha tolerância, fazendo dessa aluna ‘um exemplo, um ícone’ para os demais jovens brasileiros.”

Gostaria de respondê-la com outra carta, aberta, pois a Folha já publicou uma carta minha esse ano.

“Socorro,

Me ajude. Você está bagunçando o coreto todo. Vivemos, sim, numa democracia. Mas qual direito foi tolhido dos outros estudantes por Geisy? O direito de estudar? Ué, mas eles não podiam simplesmente ignorar um vestido curto? Você parte do princípio que todos os estudantes que vaiaram Geisy estavam desesperados por sexo. E que de tão excitados eles não conseguiam nem prestar atenção na aula!

Desculpe a ironia. É que seu discurso moralista me ofende como pessoa. Deixe-me dizer algo. Se Geisy fosse de fato estuprada, currada (estuprada coletivamente), e devassada dentro de um banheiro daquela faculdade, caso alguns alunos levassem esse desejo contido a cabo ao invés de apenas hostilizá-la como ‘puta’ entre outras coisas; você diria que ela é a culpada? Estou, sim, colocando palavras na sua boca. Mas seu texto parece me dizer ‘A culpa de tantos estupros ocorrerem é dessa juventude que fica saindo com roupas minúsculas!‘ O estuprador, na sua visão de mundo, é apenas um coitado que foi seduzido pela estuprada.

E ainda assim, na sua carta você fala que a sociedade ‘nos surpreende com tamanha tolerância’. Estou surpreso com essa tolerância. Pois o ‘puta, puta!‘ ouvido por Geisy também é o ‘bicha, bicha!‘ ouvido por homossexuais em nossas escolas. Onde está essa tolerância? Você usou aspas ao dizer que Geisy agora é ‘ícone, exemplo’. Está citando a quem? Vejo Geisy não como um exemplo a ser seguido, principalmente depois do acontecido, mas um exemplo de como o ódio e a intolerância está ao alcance de todos nós.

Não defenda os pobres estudantes, por favor. Pois eles são os mesmos estudantes que jogam garrafas em travestis, queimam índios, excluem bichas, pretos e pobres. E infelizmente fazem parte do futuro de nosso país.”

Um Voltaire moderno diria “Posso não concordar com a roupa que vestes, mas defenderei até a morte o direito de vesti-la”. Vivemos num país livre.


Sobre bodes expiatórios

13 novembro 2009

O mês de Novembro veio na trilha do “V de Vingança”: remember, remember, the 5th of November!

Tivemos dois bodes expiatórios de grande repercussão antes da metade do mês. A primeira foi a estudante Geisy Arruda, que foi expulsa da UniBan (irônico ter BAN no nome, só comentando) por estar em trajes imorais. O segundo foi Carlos Eugênio Simon, suspenso pela CBF até o final do Campeonato Brasileiro, por ter anulado um gol legítimo de Obina pelo Palmeiras, na última rodada do Brasileirão.

Quais são as semelhanças dos casos?

Os dois foram vítimas das circunstâncias. Não saberia explicar o caso de Geisy. Não sei se fazia calor. Se houve uma festa no dia anterior. Se a “macharada” estava exaltada por algum lançamento no cinema pornográfico (que não acompanho). Ou se foi a estreia de “Bastardos Inglórios” que os fez encarnar os justiceiros e ir à forra contra a suposta “profissional do sexo”.

Eu tenho aversão a linchamentos morais. A lembrança do “V de Vingança” não foi acidental. Guy Fawkes, o personagem histórico inglês que quis explodir o Parlamento, foi linchado moralmente, fisicamente, e executado como bode expiatório. Mas, pior do que isso, teve sua honra denegrida como poucos na história da humanidade. É como um Judas, numa extensão bem menor, claro. Acho que Tiradentes pode encarnar nossa versão tupiniquim. Também foi morto como representante da Inconfidência Mineira, e teve pedaços de seu corpo pendurado a postes como exemplo.

Guy Fawkes

Guy Fawkes, o original.

E você pode muito bem se perguntar agora, depois de uns parágrafos, “mas o que é que Geisy expia?”

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