Realidade Zero: Capítulo 1

— Quantas realidades você disse que existem?

— Inúmeras.

— Como assim inúmeras?

— Assim mesmo, oras. Não dá pra contar. Não existem algarismos suficientes.

Ele estava realmente perplexo. Estava flutuando no espaço, ao lado de uma garota que conseguia parar em pé no vazio. Respirava normalmente, e seu coração batia num passo quase acelerado.

— E quais são as diferenças? – perguntou.

— As que você quiser.

— Como assim?

— Você pode alterar as probabilidades. Diga algo que aconteceu na sua realidade.

Essa conversa de realidades já estava dando nos nervos. A seu ver, somente um planeta Terra existia. Somente um existir. Nunca tinha parado para pensar em dimensões paralelas. Se ouvisse esse nome ontem teria ignorado a existência desse fenômeno.

— OK. Na minha realidade… Eu nasci.

— Quer ver uma realidade na qual você não nasceu?

— O quê?

— É sério. Existem milhares de realidades nas quais você não existe.

— Mas não seriam todas a mesma?

— Que nada. Você pode não existir por muitos motivos. Uns exemplos – disse a garota, assumindo uma inquietante voz repetitiva – sua mãe, ou avó, ou bisavó morreu antes de dar à luz a você ou a sua mãe ou a sua avó, ou: seu pai ou avô ou bisavô morreu antes de conhecer sua mãe e assim por diante, ou: você morreu na infância, ou: você foi assassinado na infância, na adolescência, na idade adulta, ou: você suicidou-se, ou:

— Pare! E existe alguma realidade em que você não exista?

A garota ficou imóvel por alguns segundos, e num impulso quase robótico virou-se para ele, dizendo:

— Eu só existo nessa realidade. É a realidade zero! Eu posso assistir todas!

— E não existe uma realidade paralela a essa?

— Não – rapidamente respondeu.

— Então me mostre uma realidade diferente da minha.

— Me diga um evento que aconteceu na sua realidade com cem por cento de chance.

— Eu nasci.

— Então veremos sua realidade.

Do espaço sideral vê-se a Terra, que se aproxima rapidamente da tela, o que faz com que o rapaz pense que se trate de uma sala em forma de cubo formada por seis telas de televisão enormes. Ao perceber algo tão familiar – uma televisão – certo conforto percorreu seu corpo, e ele voltou a respirar normalmente.

Nas telas, um nascimento.

— Adivinhe quem é? – perguntou a garota.

— Não sei. É minha realidade?

Ela sorriu por alguns segundos, voltando posteriormente à sua expressão contida.

— Sim. É você nascendo. Olha sua mãe.

A imagem foca a mãe.

— Minha mãe! Não sabia que tinham filmado meu nascimento!

— Mas ninguém filmou seu nascimento.

— Claro que filmaram. Você está tirando um sarro com a minha cara. Fizeram essa sala com televisões e querem me pregar uma peça.

— Não, oras. Estamos assistindo ao seu nascimento no preciso momento em que ele está ocorrendo.

— Não é possível.

— Sim, aqui é possível! Eu posso adiantar para alguma outra parte, se você quiser.

Incrédulo, ele diz num tom de provocação:

— Então adiante para o dia que eu quebrei o braço!

Num piscar de olhos, a imagem corta para um garoto de pé num balanço. Quando o balanço estava no auge de sua inclinação, a corrente arrebentou e o garoto saiu voando.

— Pare!

A imagem parou no instante em que o rapaz gritou.

— É isso mesmo! Esse é o dia que eu quebrei meu braço!

— Viu só? Eu te disse! – a garota agora estava radiante, como se a prova irrefutável de sua existência estivesse à mostra.

— E você pode mexer na minha vida? Você pode, por exemplo, fazer a corrente não quebrar?

— Aí que entram as probabilidades! Sabe qual era a probabilidade da corrente quebrar nessa sua realidade?

— Não sei. Cem por cento?

— Não, setenta e nove e meio.

— E se a probabilidade fosse menor?

— Mesmo se fosse menor, poderia quebrar. A única maneira de termos certeza é no zero ou cem por cento.

— Me deixa ver o zero por cento, então!

A imagem volta pro instante anterior ao tombo, que dessa vez não acontece. Ele está surpreso.

— Olha só! Que interessante!

Dois segundos depois, a corrente se parte e um tombo muito diferente acontece.

— Mas… Mas! – ele diz – Não era zero por cento?

— Ahh… Mas você queria zero por cento pro evento inteiro? Por que não disse logo?

A imagem volta pro instante anterior ao primeiro tombo, que não acontece. Dois segundos depois, a segunda queda também não acontece.

— Dessa vez eu vou gangorrar até quando?

— Até quando sua mãe te chamar.

Uma voz grita “filho”. O garoto pára de balançar e corre na direção da mãe.

— Olha, ela demorou esse mesmo tempo pra ir me buscar.

— Na sua realidade né?

— Pois é.

A imagem seguiu por alguns instantes mãe e filho, e quando saíram pelo portão principal do parque, um menino de rua roubou a bolsa da senhora.

— Ué… isso não aconteceu.

— Não aconteceu porque você quebrou o braço.

— Você está querendo me convencer que quebrar o braço foi uma coisa boa?

— Não. Com certeza existe uma realidade em que quebrar o braço foi péssimo.

A imagem muda para o mesmo menino, agora sem o braço direito.

— Credo! Muda essa!

— Tá vendo?

— Por que diabos você está me mostrando isso?

— Eu só quero um pouco de companhia.

Após alguns instantes de silêncio assistindo ao garoto sem o braço sendo ridicularizado na escola, o rapaz diz:

— Quanto tempo tem que você mora aqui?

— Não tenho como contar o tempo.

O rapaz coça a cabeça, em dúvida.

— E quantos anos você tem?

— Não sei.

— Como assim não sabe?

— O tempo não passa aqui.

Com uma cara incrédula, o rapaz diz:

— Não quero mais saber dessa brincadeira.

— Não entendo o que você quer dizer.

— Cansei disso. Posso sair?

— Por quê? Não está achando divertido?

— Nem um pouco. Vamos lá, me mostre a porta.

— Não temos porta…

— Qual é, vai.

O rapaz tenta andar, e percebe que está caminhando no ar, sem se mover.

— Que truque é esse?

— Já te disse, não é truque…

Ela se mostra aborrecida com a reação de seu novo amigo.

— Pensei que você ia gostar de ver essas coisas! Estou te dando uma chance única de compreender e vivenciar o universo de uma maneira que você nunca imaginou!

Ele fica em silêncio por um tempo.

— Tudo bem, me mostra alguma coisa legal.

— Iupiii!

A garota aparentava ter uns dezessete anos, porém se portava de maneira bastante infantil para sua aparência. Expressava sua felicidade e tristeza com franqueza típica de menina levada.

— Olha isso!

A imagem ao fundo mudou para um belo pôr-do-sol.

— Bonito! – disse o rapaz, sorrindo.

— É, né?

— Você pode colocar um dia que o pôr-do-sol acontecesse com zero por cento de chance?

A imagem do pôr-do-sol some, e um símbolo vermelho em forma de ‘X’ aparece.

— Não.

— E por quê?

— Porque o pôr-do-sol do seu planeta acontece sempre. Eu posso encontrar um pôr-do-sol com as nuvens em zero por cento ou cem por cento. Mas não posso ver o sol explodir.

A imagem muda para o sol, implodindo lentamente.

— E o que é isso?

— Ah, isso não é de verdade. Isso seria o futuro da Terra, muitos anos à frente.

O sol vai implodindo até um momento em que explode em fogo.

— Tá vendo? Coloquei cem por cento que essa teoria é válida.

— Que teoria?

— A de que o sol vai diminuir a massa antes de causar uma grande explosão de calor.

— E o fim da humanidade, você pode ver?

A imagem muda para o planeta Terra sendo atingido por uma chuva de meteoros.

— Pode acabar assim… Ou:

A imagem muda para o planeta Terra explodindo num cogumelo vermelho

— Assim… Ou:

A imagem muda para o planeta Terra congelado.

— Ou:

A imagem muda para o planeta Terra sem os oceanos, todo amarelo.

— Entendeu como funciona?

— Sim… Estou sacando.

— Quer tentar uma vez?

— Quero.

— Então diga uma frase e a porcentagem.

— O super-homem existe de verdade, cem por cento!

— Ai!

O planeta Terra some, e o ‘X’, dessa vez amarelo, aparece novamente.

— O que aconteceu?

— O super-homem existe em muitas realidades. Mas na história em quadrinhos. Você não pode fazer ficção virar realidade. Esse ‘X’ amarelo quer dizer que foram encontrados muitos resultados, mas nenhum deles está de acordo com sua pergunta.

— Tá, vou tentar outra coisa, então.

Ele olhou bem para a garota, e novamente procurou a porta da saída. Teve medo de não poder sair daquele lugar.

— Eu não vim parar aqui, cem por cento!

— Essa é mais interessante!

O rapaz aparece andando pela rua, e encontra um amigo. Eles se cumprimentam, e conversam amigavelmente.

— Pois é, então existe uma realidade em que eu continuo vivendo normal?

— Sim, você continua vivendo normal, na verdade. Em qualquer realidade, vai ser como se você nunca estivesse aqui. Quando você voltar, vai achar que foi um sonho.

— … e não é?

A garota ri.

— Depende, o que é realidade e o que é sonho?

— Sonho é o que vem quando estamos dormindo.

— E como você sabe que está dormindo?

Ele percebe que vai entrar numa discussão sem fim, e resolve voltar à brincadeira.

— Você me mostrou um futuro, e meu passado. Você pode escolher viajar pra quando quiser? Digo, não é como se você estivesse assistindo uma fita, você disse que está lá de verdade?

— Sim. A gente assiste às coisas no momento em que elas acontecem.

— Então tem uma coisa que estou muito curioso pra saber, como faço pra gente voltar no tempo pra ver?

Ela sorri, pois finalmente convenceu seu novo amigo a se divertir.

— Simples! Diga: Acontecimento! Data! Local! Ou qualquer mistura desses três.

Uma expressão desafiadora tomou conta do rosto dele.

— Então segura essa.

Ela fez expressão de quem não estava entendendo.

— Aqui! Daqui a um segundo!

Eles estavam se vendo na tela, de costas. Pela primeira vez, a garota estava sem expressão. De repente, a garota na tela diz, antes que eles pudessem falar qualquer coisa:

— Tá aí uma coisa que nunca tentei.

Eles se entreolham, assustados. O rapaz da tela responde:

— E aí, não vai funcionar?

— Espera aí, nós não estamos dizendo isso!

— Estranho, não tem nada na tela! Isso só pode ser algum erro!

— Isso só pode ser algum erro!

A garota silencia. Os dois que estão no futuro olham pra trás, como se olhassem para uma câmera que os filma. Uma luz branca surge por trás dos dois que estão no presente.

— Isso quer dizer que nós vamos olhar pra trás?

Nenhum dos dois se move. A imagem da tela se apaga.

— Você não tá curioso?

— Eu acho que posso escolher continuar olhando pra frente.

— Eu não sei o que é isso, nunca aconteceu comigo antes…

— O que vai acontecer?

A garota abre a boca para tentar esboçar uma resposta, e a tela liga novamente, desta vez toda em branco. Ela consegue falar uma última vez.

— Isso é… o fim?

A luz branca toma conta do local.

(Será que é mesmo o fim?)

2 Responses to Realidade Zero: Capítulo 1

  1. Luciano Alvim disse:

    Isto, senhores, é uma página Mutante.
    Ela muda de acordo com o tempo e com qual história está na minha cabeça.
    A primeira foi sobre as realidades alternativas.
    Agora pensei em outra.

  2. Nanda disse:

    Eu gostei. Pensei em desenhar isso, pena que não iria conseguir que ficasse tão massa quanto eu imaginei.

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