Agora que nós conseguimos, o que conseguimos nós?

6 outubro 2010

(Artigo de Dave Trott, publicitário britânico, publicado originalmente em http://www.cstadvertising.com/blog/2010/10/now-that-weve-got-it-what-have-we-got/ )

Cerca de um ano atrás, eu vi um amigo meu.

Ele estava insatisfeito.

Ele tinha construído uma empresa lucrativa mas não conseguiu vendê-la.

Ele queria o dinheiro.

Ele queria as coisas que pessoas de sucesso tem.

Ele queria uma casa no exterior.

Mas não conseguiu vender sua empresa, então ele não tinha nada disso.

O que é a razão de sua insatisfação.

Semana passada eu o vi novamente.

Ele conseguiu vender sua empresa.

Ele ganhou muito dinheiro.

Ele comprou uma bela casa na França, com muito terreno.

Mas agora ele tinha outra coisa para ficar insatisfeito.

Ele não conseguia ver por quê ele trabalhava tanto para outra pessoa.

Ele não via mais o sentido disso.

Ele não sabia se deveria chutar o balde e sair da corrida de ratos.

Trabalhar a terra, ser auto-suficiente.

Ele estava insatisfeito.

O que parece ser a condição humana.

Nós somos insatisfeitos com alguma coisa.

Tudo deveria ficar bem se consertássemos isso.

Então, nós consertamos.

Mas tudo não fica bem.

Porque agora temos que procurar outra coisa pra ficarmos insatisfeitos.

Eu penso assim porque todos nós engolimos o mito de Hollywood.

Que insatisfação é uma coisa boa.

Precisamos da insatisfação pois é o que nos leva a ter sucesso.

Pensamos que se pararmos de ficar insatisfeitos, vamos parar de tentar.

Então nos agarramos à nossa insatisfação como um “cobertor de segurança”*.

É o que se conhece nos Estados Unidos como “A Ética Protestante“.

Prazer excessivo é uma coisa ruim.

O que significa que sentiríamos culpados se ficássemos satisfeitos.

Então temos a insatisfação em nosso âmago.

Como uma neurose.

Está sempre no fundo de nossas mentes.

Se ficarmos satisfeitos vamos ficar preguiçosos.

Porque insatisfação é o motor que nos leva ao sucesso.

É isso que o mito me diz.

Mas não tenho certeza se isso é certo.

Não me entenda mal.

Eu amo trabalhar.

Pelo menos, eu amo meu trabalho.

E eu presumo que existem outras pessoas que amam seus trabalhos.

Mas trabalhar por amor ao trabalho é bem diferente de trabalhar por medo.

Trabalhar por medo é como viver por medo.

Ficar com medo do que você está perdendo.

O que você deveria fazer mas não está fazendo?

Você devia estar trabalhando mais, ganhando mais dinheiro?

Ou você deveria ter mais diversão, mais festas, mais sexo?

Ou você deveria estar meditando no alto de uma montanha na Índia?

O que quer que você devesse estar fazendo, não pode ser o que está fazendo agora.

Bem, uma coisa é certa.

Enquanto estamos imaginando todas essas coisas, não as estamos fazendo.

E também não estamos aproveitando o que fazemos.

Então criamos insatisfação sem satisfazê-la.

Isso é razoável?

Que tal olhar dessa outra maneira.

Essa insatisfação é somente uma sensação aleatória com a qual temos que lidar.

Lidamos com sensações aleatórias o tempo todo.

Medo do escuro.

Medo de hospitais.

Medo de falhar.

Medo de parecer idiota.

Essa insatisfação é somente outra dessas.

Em Cingapura eles tem uma expressão chinesa para isso, “Kia Soo“.

Significa “Medo de perder uma chance“.

É isso que governa a maioria das pessoas.

Medo de perder uma chance que outro possa ter.

Medo de que alguém possa conseguir algo e você não.

Kia Soo.

Essas são as pessoas que estão o tempo todo na correria.

Que entram na sua frente numa fila, no metrô, no ônibus.

Enfiam na frente de você num engarrafamento.

Pessoas que são guiadas pela insegurança, insatisfação.

Então esse é o paradoxo.

Escolhemos ser insatisfeitos.

Então nos sentimos mal por estarmos insatisfeitos.

Isso faz algum sentido?

Certamente, se cairmos no mito que a insatisfação é o motor do sucesso, então deveríamos nos sentir bem com a insatisfação.

Se não cairmos nesse mito, por quê escolhemos nos sentir insatisfeitos?

Dessa maneira só vamos acabar como meu amigo.

Constantemente insatisfeito por estar insatisfeito.

*: Do original security blanket. É como aquele personagem do Snoopy, que vive andando com um cobertor, e não o solta por nada. Da Wikipédia: “Um objeto familiar cuja presença provê conforto e segurança para seu dono, como os cobertores muitas vezes usados por crianças.” Lembrei do filme Trainspotting – se não me engano – em que Diane (a menina menor de idade que leva Mark para a casa dos pais) fala de seu raggy (trapinho), revelando traços de sua imaturidade.


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