O Direito de Vestir

14 novembro 2009

Pessoal,

Sinto que voltei no tempo e estou falando sobre o Caso Isabela Nardoni de novo. É culpa do jornal, ficam dando tanta atenção à Geisy que me pego pensando na repercussão, e acabo pensando algo diferente que preciso falar. Não estou justificando, pensem pelo lado bom. Pelo menos estou escrevendo de novo.

É que eu li uma carta no “Painel do Leitor” da Folha de São Paulo de ontem (13/11), de uma médica ginecologista e obstetra chamada Socorro Magalhães, de Fortaleza/CE. Reproduzo aqui:

“Não entendo mais o que são valores morais.

É claro que vivemos numa democracia, mas o direito de um termina quando o do outro começa.

A conduta descabida, o erotismo e o modo de vestir-se e de se portar dessa garota desviava a atenção dos alunos das aulas, prejudicando o bom desempenho daqueles que ali se encontravam na luta por um espaço no mercado de trabalho nesse mundo altamente competitivo.

Ela queria chamar a atenção para si e conseguiu o seu intento com êxito, pois essa nossa sociedade nos surpreende com tamanha tolerância, fazendo dessa aluna ‘um exemplo, um ícone’ para os demais jovens brasileiros.”

Gostaria de respondê-la com outra carta, aberta, pois a Folha já publicou uma carta minha esse ano.

“Socorro,

Me ajude. Você está bagunçando o coreto todo. Vivemos, sim, numa democracia. Mas qual direito foi tolhido dos outros estudantes por Geisy? O direito de estudar? Ué, mas eles não podiam simplesmente ignorar um vestido curto? Você parte do princípio que todos os estudantes que vaiaram Geisy estavam desesperados por sexo. E que de tão excitados eles não conseguiam nem prestar atenção na aula!

Desculpe a ironia. É que seu discurso moralista me ofende como pessoa. Deixe-me dizer algo. Se Geisy fosse de fato estuprada, currada (estuprada coletivamente), e devassada dentro de um banheiro daquela faculdade, caso alguns alunos levassem esse desejo contido a cabo ao invés de apenas hostilizá-la como ‘puta’ entre outras coisas; você diria que ela é a culpada? Estou, sim, colocando palavras na sua boca. Mas seu texto parece me dizer ‘A culpa de tantos estupros ocorrerem é dessa juventude que fica saindo com roupas minúsculas!‘ O estuprador, na sua visão de mundo, é apenas um coitado que foi seduzido pela estuprada.

E ainda assim, na sua carta você fala que a sociedade ‘nos surpreende com tamanha tolerância’. Estou surpreso com essa tolerância. Pois o ‘puta, puta!‘ ouvido por Geisy também é o ‘bicha, bicha!‘ ouvido por homossexuais em nossas escolas. Onde está essa tolerância? Você usou aspas ao dizer que Geisy agora é ‘ícone, exemplo’. Está citando a quem? Vejo Geisy não como um exemplo a ser seguido, principalmente depois do acontecido, mas um exemplo de como o ódio e a intolerância está ao alcance de todos nós.

Não defenda os pobres estudantes, por favor. Pois eles são os mesmos estudantes que jogam garrafas em travestis, queimam índios, excluem bichas, pretos e pobres. E infelizmente fazem parte do futuro de nosso país.”

Um Voltaire moderno diria “Posso não concordar com a roupa que vestes, mas defenderei até a morte o direito de vesti-la”. Vivemos num país livre.

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